
A querela pensar e conhecer são uma das grandes disputas existentes entre os modernos na filosofia da educação. Conhecer e pensar são a mesma coisa? Nossas escolas e universidades as tratam como iguais ou dessemelhantes? Quais os danos que esses problemas podem levar para a educação?
São estas indagações que tentaremos apresentar neste artigo, para isto, partiremos para o estudo da pensadora Hannah Arendt, mais especificamente no seu trabalho sobre “a banalidade do mal”. Neste artigo a autora nos apresenta o carrasco nazista Eichmann em seu julgamento em Jerusalém. De acordo com a autora o auto- oficial nazista não é nenhum gênio do mal, ou muito menos um ser possuído pelo demônio, como nos atesta a nossa tradição. Para a surpresa de todos, Arendt nos mostra uma face do mal completamente nova. O mal é banal.
Mas em que consiste essa banalidade? Consiste na ausência de reflexão, na irreflexão. Arendt percebeu que o auto-oficial nazista só respondia frases feitas, clichês. Para esta, ele só fazia aquilo que lhe mandavam. Se mandassem matar ele matava. Era uma ordem. E como ordem ela deveria ser cumprida. Algo típico de uma educação militarista. Entretanto essa educação militarista se confunde com a nossa, visto que a educação moderna não privilegia o ser de pensamento, mas sim o ser de conhecimento. Mas qual a diferença entre pensar e conhecer.
O conhecer é uma tarefa que possui uma finalidade como desvelar o mundo, descobrir o mundo. Este trabalha com a verdade. Etimologicamente verdade deriva do termo grego chamado alethéia, que quer dizer desvelar ou revelar, mostrar o que se encontra oculto. A tarefa do conhecimento é o desvelar. Enquanto que o pensar não possui finalidade, ele é um eterno caminhar, é uma incessante busca desinteressada e sem regras estipuladas. É uma busca por significados e não por verdades. Segundo Arendt, assemelha-se ao mito de Penélope, a qual enquanto esperava o seu marido Ulisses, tecia sua teia, e a noite, a desfazia. Neste sentido, percebemos que o pensar esta intimamente ligado com o filosofar muito mais do que com o conhecimento, pois filosofar é um caminhar eterno e pensar também é um caminhar. Entretanto a tradição filosófica, basicamente Platão e Descartes não perceberam isso. Para esta a tradição falhou. Platão por ter confiado demais na verdade, ou seja no conhecimento e Descartes por ter desprezado os sentidos. Os que mais se aproximaram foram os romanos, os quais definiram o pensar enquanto um afastamento.
Não devemos entender esse afastamento como uma fuga do mundo. É um distanciar-se do mundo para poder compreendê-lo, não podendo ser “entendido como uma omissão para com as coisas do mundo , mas sim como uma abertura, como uma interrupção do cotidiano. Não é fuga nem descompromisso, mas um abandono que favorece a possibilidade de distanciar-se e reaproximar-se das coisas com um novo olhar .(MARCELO, p. 05)
A tradição platônica e cartesiana pode ter errado, mas para Arendt, Sócrates sabia muito bem o que estava fazendo. Ele não se deixou levar pelo profissionalismo do pensamento instrumental. Ele transitava ente o sensível e o pensar. Suas perguntas e questionamentos eram simples e concretos. A simplicidade de suas perguntas demonstrava a complexidade das respostas. Quando Sócrates pergunta o que é a pedra ou a cadeira, ele pergunta pelo conceito, algo geral, mas acima de tudo, ele faz um trabalho de exercício do pensar. Suas repostas sempre são aporias, e é nestas aporias que residem à grande singularidade de Sócrates, pois como sabemos a aporia é o confronto de duas verdades estabelecidas, ou seja, de um conhecimento determinado, mas para Sócrates o importante não é o conhecimento, mas sim a busca, pois esta sim, constitui-se em um verdadeiro pensar.
Alguns podem argumentar que Sócrates era um pensador distraído e que como todo filosofo só quer saber de contemplar. Não podemos nos deixar enganar por este pensamento, visto que as questões socráticas eram discutidas na Ágora, e que quando Sócrates fala de justiça, de virtude, ele demonstrava a sua preocupação moral.
Mas o que Hannah Arendt quer com Sócrates? Para Arendt a reposta sobre as ações de Eichmann encontram-se justamente em Sócrates. Eichmann tinha conhecimento do que fazia, conhecimento de suas ações, mas não pensava sobre ela. Arendt levanta a hipótese que se Eichmann tivesse feito o exercício socrático do pensamento ele não teria praticado atos impiedosos e covardes.
Hannah Arendt esta chamando atenção para uma educação iluminista que privilegia o conhecimento acumulativo nas escolas faculdades e universidades, no lugar de um pensar. A reflexão não mais interessa. O importante é conhecer. Não interessa saber o porquê das somas internas de um triângulo se iguala dois retos, mas sim, decorar e encontrar a hipotenusa. Não interessa saber porque acontece o movimento de translação da terra e suas conseqüências para a nossa vida, mais sim que a terra gira em torno do sol e pronto.
Descartes nos dizia que somos seres pensantes, mas em verdade percebemos que não somos seres pensantes, ma sim seres de conhecimento reprodutivos. Somos máquinas reprodutoras de saber binominais. Só conhecemos através da verdade ou falsidade. Da afirmação ou da negação. Nos conhecemos a citar Hegel, Quando negamos o outro. A alteridade nos define e nos educa.
A crítica de Arendt é para uma educação que não ensina o homem a ver o mundo de forma simbólica. A vê-lo com um novo olhar de Thauma, de Pathos. Uma educação alienante e reprodutiva que não privilegia o pensar.